Os discípulos de Emaús: quando o coração reconhece a Palavra

Muitas pessoas consideram a leitura da Bíblia difícil demais. São muitas traduções, dizem alguns, muitas notas de rodapé, contextos diferentes do nosso… o sono bate, as distrações vêm. Não tenho tempo, amanhã retomo, não sei por onde começar… Nem todo mundo tem vocação para ser exegeta — mas isso não é o que Deus pede. Ele deseja algo mais simples e mais profundo: dialogar com você, se comunicar.

Existem muitas formas em que percebemos a comunicação de Deus: ao redor de nós, pela beleza da criação, através do amor humano, por uma palavra amiga, uma providência; dentro de nós, por uma inspiração, por Sua graça e presença. De todas as formas de comunicação de Deus, Ele escolheu uma por excelência: o Verbo, que é Amor, “que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Aquele que se deu por inteiro e nos fez conhecer o Pai, com um único intuito: salvar você, para que um dia possa estar eternamente junto d’Ele.

Por meio da Palavra, Deus se comunica conosco em linguagem humana. Mas quem age o tempo todo é Ele: inspira quem escreve, quem interpreta, quem lê, quem transmite. Sem Ele, “nada podemos fazer” (Jo 15,5), nem compreender.

Em uma das narrativas das aparições do Ressuscitado, encontramos dois discípulos que se esqueceram — não das Escrituras que conheciam, mas da promessa que elas anunciavam: os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35). Certamente sabiam o que diziam os profetas; mas diante da morte de Jesus, o luto apagou a memória da fé, e a tristeza tomou o lugar da esperança. Distraídos, conversavam entre si — tão distraídos que nem perceberam a aproximação d’Ele. Jesus, como quem não quer nada, inicia um diálogo com eles e, porque “falava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29), ganha sua atenção, a ponto de desejarem que ficasse com eles, ainda sem saber quem era.

Muitas vezes Deus age assim conosco: em meio às nossas distrações e esquecimentos, Ele se aproxima sem que percebamos, abre nosso entendimento para as Escrituras e deixa um sinal de Sua presença — um ardor no coração. Quantas vezes somos “surpreendidos” por Deus assim: enquanto estamos distraídos, Ele se aproxima e, de repente, com uma só palavra ou um único versículo, abre o entendimento, faz arder o coração, leva às lágrimas, ao arrependimento, à confiança, à gratidão.

O que dizer dos santos que a história da Igreja nos conta, transformados ao ouvir um único versículo? Santo Agostinho, São Francisco de Assis e tantos outros andavam distraídos, mergulhados em si mesmos ou no pecado, alheios às promessas de Deus em suas vidas — até que, de repente, ouviram uma voz silenciosa, mais eloquente que qualquer outra, que mudou tudo e nunca mais foi esquecida.

Todos os dias, Deus quer estar com você, caminhar ao seu lado; quer ouvir sua voz, mas também quer falar. Convide-O a entrar. Não queira fazer nada sozinho: sente-se à mesa com Ele e deixe-se saciar, orientar e curar por Sua Palavra, até que o coração também arda ao ouvir essa Voz. Pode ser que, em alguns dias, nada pareça acontecer — não se preocupe, pois nem sempre Sua ação é sentida; mas uma coisa é certa: ela se revela nos frutos, na transformação que opera. Ainda que você não consiga lembrar os versículos ou os termos exatos, saiba que Deus não quer apenas gravar palavras em sua memória: Ele quer gravar Sua voz em seu coração, para que, como os discípulos de Emaús, também façamos a experiência de um Deus vivo e ressuscitado, que caminha conosco e nos faz arder de amor.

PRISCILA SILVEIRA LIMA
SERVAS DE NOSSA SENHORA DA ALEGRIA

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