A Bíblia não é um livro, é uma Pessoa — A diferença entre ler a Escritura como texto histórico e encontrá-la como encontro com Deus

A Bíblia é, em linhas gerais, a Palavra de Deus — de maneira que lê-la é ter acesso à voz do próprio Deus por meio das pessoas por Ele inspiradas. É por isso que a meditação diária da Escritura não pode ser reduzida a uma simples leitura espiritual entre tantas outras: ela é, antes, via de acesso ao conhecimento divino e às realidades celestiais.

Para entender melhor essa diferença, vale refletir sobre dois versículos do capítulo 16 do Evangelho segundo Mateus. Primeiro, o versículo 16: “Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Depois, o versículo 18: “Também eu te digo que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão sobre ela.” Note-se que o conhecimento de quem Pedro é vem depois do conhecimento de quem é Jesus. Essa ordem não é aleatória, nem fruto de coincidência literária: é uma pista de como deve ser o nosso próprio ser cristão. Primeiro precisamos conhecer o Cristo, Filho do Deus vivo, para que só Ele nos revele quem nós somos.

Simão só se torna Pedra depois da profissão de fé — só se conhece verdadeiramente depois de ser conhecido por Deus. Por isso, quanto mais conhecemos a Cristo, mais descobrimos de nós mesmos: essa é a rota do amadurecimento espiritual, já que, em uma frase, vida espiritual nada mais é do que intimidade com Deus. E, justamente por ter o ser humano como agente, esse amadurecimento nunca é perfeito; comporta imperfeições, porque somos falhos. Mas é exatamente aí que a percepção da misericórdia de Deus nos anima e nos dá esperança: não éramos nada, e podemos ver o quanto Ele nos dignifica e nos permite crescer.

Para que essa realidade de mudança e transformação interior aconteça, no entanto, faz-se necessária a busca assídua pelo encontro com Aquele que, a todo momento, quer nos falar. E é exatamente aqui que reside a diferença anunciada no título deste texto. Quando abrimos a Bíblia apenas como quem abre um documento antigo — para catalogar datas, contextos e personagens —, permanecemos do lado de fora do texto, meros observadores de uma história que já aconteceu. Mas quando a abrimos como Simão Pedro se abriu à pergunta de Jesus — “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 15) —, ela deixa de ser relato do passado e se torna voz presente, dirigida a nós, hoje. Não se trata de negar o valor histórico da Escritura, mas de reconhecer que sua verdadeira finalidade não se esgota nele: ela existe para nos conduzir a Alguém, não apenas a informar-nos sobre Alguém.

Por isso, ler a Bíblia com fé é sempre mais do que ler: é deixar-se interrogar por ela, como Pedro foi interrogado, e responder com a própria vida. É trocar a postura de quem estuda um livro pela de quem se encontra com uma Pessoa — e, desse encontro, sair, como Simão, transformado.

GABRIELA MOURA SILVA
SERVAS DE NOSSA SENHORA DA ALEGRIA

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